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A fome que assombra o Rio Grande do Sul: relatos de famílias à beira do abismo

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No Rio Grande do Sul, 1,7 milhão de pessoas enfrentam insegurança alimentar, conforme dados do IBGE, revelando uma crise que obriga famílias a fazerem escolhas dramáticas entre comida, remédios e contas. Histórias como a de Jéssica de Mello, dona de casa que cria sozinha três filhos e um irmão, ilustram essa realidade. Com a saúde debilitada após perder um pulmão, ela depende de medicamentos caros e relata dias em que só há arroz na mesa, sem feijão ou azeite. “Os guris diziam: ‘mãe, não tem feijão?’ Não tem”, conta ela, destacando o dilema constante de priorizar a alimentação das crianças em detrimento de outras necessidades essenciais.

Semelhantes dificuldades marcam a vida de Camila Rodrigues, mãe de sete crianças, que se emociona ao prever um Natal sem presentes ou comida farta. “Não é fácil ver teu filho pedir as coisas e não ter”, diz ela. Alex Silva da Silva, desempregado, enfrenta o mesmo impasse: “Ou eu compro um presente de Natal ou eu compro comida pra eles”. Regina Lourenço, mãe solo de três filhos, lida diariamente com os pedidos de fome das crianças, enquanto Mara Regina Carvalho, avó de quatro netas, chega a abrir mão de sua própria refeição para alimentá-las, chorando escondida para não as preocupar.

A nutricionista Mariana Petracco de Miranda alerta para os impactos da desnutrição, como perda de massa muscular, fraqueza, tontura e problemas de concentração, que afetam o desenvolvimento infantil a longo prazo. No estado, de 2021 até este ano, 1.271 crianças e adolescentes foram internados por desnutrição. Nacionalmente, 18,9 milhões de famílias sofrem insegurança alimentar, com crianças de 0 a 4 anos (3,3%) e de 5 a 17 anos (3,8%) sendo as mais afetadas na forma grave.

O pesquisador Juliano de Sá enfatiza que o perfil da fome recai sobretudo sobre mulheres pretas da periferia e mães solo, defendendo políticas públicas como solução: “É fomentar para que as pessoas tenham acesso a um alimento adequado, saudável, principalmente para quem tem criança em casa”. Enquanto isso, o medo persiste, como no depoimento de Jéssica: “Eu tenho medo de não ter as coisas pra eles. Medo de vir a óbito e deixar eles assim”.

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